“A poesia não se entrega a quem a define.


Mário Quintana


domingo, 18 de novembro de 2012

Devaneios


Telefonemas...

-Alô? Oi, me responde uma coisa? Eu sou bonita?
-Como é? A voz de sono acusou que eu acabara de acordá-lo. 
-É, você ouviu, eu sou bonita, gostosa,  você me pegaria?
-Isso é coisa que se pergunte, sua louca? Bebeu?
-Não, mas eu quero resposta, sim ou não?
-Sei lá...
-Sabia, não devia perguntar isso pra um amigo... Devia ter perguntado pra um total desconhecido, que no mínimo, tentando alguma coisa, diria que eu sou gostosa  e perguntaria porque eu não apareço no apartamento dele...
-E você aceitaria?
-Se fosse um estranho bonito, quem sabe?
-Mas e se fosse um maníaco, vendedor de orgãos de mulheres desesperadas por aceitação assim que nem você... 
-Você tem cara de maníaco e vira e mexe eu vou pro seu apartamento... E até agora meus orgãos estão intactos, eu acho pelo menos... Bah, mulheres desesperadas por aceitação, é lógico, eu não tenho essa cara de maníaco sedutor rei dos movimentos pélvicos que você tem... Porque eu deveria ficar conformada e não perguntar se alguém me acha bonita?

-Eu te acho bonita...
-Demorou muito pra falar, vou pra rua perguntar pra algum estranho...
-Se eu passar de boné na sua frente você me pergunta?
-Você de boné é realmente estranho... Quem sabe.
-E se eu te convidar pra aparecer no meu apartamento, vai ser estranho também?
-Vai, mas você é um estranho que eu já conheço... Talvez eu aceite, se rolar uma breja e um pacote de Doritos...
-Então prepara a pergunta que em 10 minutos eu passo aí na porta...

E a minha cabeça martelou que em 10 minutos eu teria que fazer a pergunta que eu tive coragem de fazer somente por telefone... E que não recusaria se ele me chamasse pro apartamento dele, sentia falta do cheiro dele... Com tantos números pra ligar, eu fui direto pro número dele.... 9 minutos... Eu não recusaria um flerte ou uma mão no ombro, uma fungada na curva do pescoço e a barba dele roçando e me fazendo cócegas... 6 minutos... Descer as escadas tentando não parecer afobada, atravessar a rua e fingir olhar a revista de fofoca que eu odeio só pra ver ele se aproximar de boné e a camiseta de frase pronta que ele mesmo havia pintado...
-Oi, posso te perguntar uma coisa? Você me acha bonita? Seguido de um sorriso ridículo e esperando uma resposta nada convincente... Ele pegou na minha mão.

-Ei, você não vai me responder?
-Quando chegarmos no meu apartamento te respondo...
-E quem disse que eu vou com você pro seu apartamento...
-Quer a resposta sim ou não?

Numa falsa resistência, arranquei da sua mão o meu punho e segui rumo ao apartamento dele, 3 ou 4, ou 5 quadras de onde eu morava...

Subi as escadas com uma calma e com uma rotina já a ser seguida... Quando a porta bateu atrás de mim, os pêlos da nuca eriçaram, o bafo quente e descompassado de quem correu atrás de mim pelos degraus, sussurrando na minha orelha... Os dedos entrelaçaram e antes da boca atingir o meu pescoço, desvencilhei-me de pernas bamba até a cozinha, onde me esperava uma garrafa de Coca-Cola...
Beberiquei distraída, enquanto ele arrumava a sala aos tropeços, era impressão minha ou ele havia dado um jeito no apartamento? Vasculhei calcinhas e outros vestígios na área de serviço, como se não me importasse. Não achei nada, não me devia nada.

Sentei-me no sofá, abracei uma almofada e liguei a televisão com de costume... Ele só olhava, ora divertido, ora confuso, até que se sentou ao meu lado, ergueu as pernas e jogou-as sobre mim... Circulei os dedos em sua rótula, como sabia que ele gostava, era inconsciente, era diferente... Até que ele avançou, avançou com barba, cabelos e tudo o que não dava pra despir naquele momento.

Acordei na manhã seguinte no sofá, com as pernas vibrando em recordações, e ao meu lado um bilhete, aquela letra horrível dele que dizia:

"Você é bonita, você é gostosa, e sempre que tiver dúvidas, sabe onde encontrar um estranho que te console. Ass: Seu estranho"

Sorri, tomando mais um gole de Coca-Cola e massageando meu ego de mulher que precisa de aceitação e de um maníaco não contrabandeador de orgãos pra perguntar se eu sou bonita....

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Devaneios...


ndrome-de-querer-alguém...

Sou péssima em inventar desculpas e ótima em querer as pessoas por perto...

Assim, meio síndrome-de-querer-alguém-por-perto, se é que isso existe, e se não, deviam procurar mais, porque eu devo ter...
Sempre canso das coisas muito rápido, dos livros, dos poemas, dos bichinhos de feltro que eu esqueci de costurar e daquele tênis que antes eu não tirava do pé.

Mas me esqueci, ou esqueceram de me ensinar, a cansar das pessoas... Canso das coisas, não das pessoas, gosto dos sorrisos, dos trejeitos e acessos, observo silenciosa e volátil todo e qualquer movimento... Cansei do ursinho que ganhei de aniversário e dos cadernos que eu faço questão de comprar 1 por mês, ainda que eu não tenha escrito nada no último... Mas não cansei do cheiro de pele, do calor dos abraços, do brilho do olho. 
E talvez por isso, senti falta e senti uma falta que não batia na minha porta( se é que precisava bater pra entrar e bagunçar tudo)  há uns 4 anos... Saudade de estar perto de quem está bem longe...

Mas a falta já tá indo embora, porque o Frango Frito chegou e a garrafa de vinho já tá aberta(remédio melhor pros dias de Sindrome-de-querer-alguém-por-perto não tem)... Tem sim, ter alguém pra dividir a garrafa que já está na metade e ouvir as lamentações de quem cansou das coisas mas não das pessoas...

Devaneios...


Barba Rala

-E se ele me beijar o que eu faço? Pensava aturdidamente, tentando calar os impulsos animais que estava segurando a meses, ou semanas, ou dias, (ou um fim de semana), enfim, que estava segurando... E ele vinha, hirsuto, de barba cheirosa e o corpo que eu sentia saudade de ver sempre... Ver, não ter, porque nunca tive...
Me abraçou, o coração quase pulou, parou na garganta e eu fiz um esforço danado pra engolir ele de volta pro lugar(e o medo de cuspir ali, na frente dele, o coração feio e machucado que eu tinha e guardava a tanto tempo só pra mim? )Vai que ele se assusta e sai correndo, não é todo dia que alguém vomita um coração feio e machucado na sua frente.
Passou o braço na minha cintura e me puxou pra perto, e o cheiro do perfume dele invadiu meus pensamentos e bateu lá no baixo ventre, senti as pernas tremerem e o entremeio umidecer. Falou besteiras de um economista qualquer, franziu a testa quando comecei meu papo chato-heróico de falsa comunista, diva enrustida e bêbada sem licor. Passou as mãos atrás da minha orelha, sabia que me deixava tonta assim, olhou nos meus olhos e riu, riu aquela risada que me estremeceu o ventre, um sarcasmo, uma delicia, um deboche que eu não esperava, era só alguém que caía atrás de nós...
Na sala, ajeitou-se ao meu lado, pôs a mão em minha coxa e apertou com medo, como se eu reprovasse,(ah se ele soubesse o que se passava na minha cabeça),encostou os lábios na curva do meu pescoço, e eu segurei pra não tremer ou gritar. Ou pular em cima dele...
O beijo foi calmo e delicioso,  tinha aquele gosto de guaraná que tínhamos acabado de beber, porque o vinho tinha acabado... A mão foi calma e respeitosa(maldita mão respeitosa). Não prestei atenção nos 2 filmes que assistimos, só me atentei na respiração dele, a cada risada, a cada comentário humorista-fim-de-carreira que eu não podia criticar, me faziam rir...
E o dia terminou assim que o telefone tocou, boas ou más notícias simplesmente o fizeram passar pela porta.... Só um olhar de complascência que me irritou momentâneamente. Um tombo na cama e o pensamento que martelava insistente: E se ele não me ligar?

Palavra do Dia!


Sai de mim 



Sai de mim coração despedaçado
aqui dentro é frio e o vento corre calado

Os cortes da vida ainda não cicatrizaram

Sai de mim coração
que eu não quero sentir
não quero sorrir

Vai coração
descansa ali no canto ou sobre a mesa
te recolho quando tiver certeza
de te fazer feliz coração

Vai passear e se quiser não volta, prometo não trancar a porta

Sai de mim coração
e se sentir saudade do seu velho amigo
passa na minha janela
que eu te aceno pelo vidro

E se quiser chorar
chora quando chover
pra água esconder a lágrima
e a levar consigo a dor, tão amálgama

Palavra do Dia!



Aurora Boreal


O céu explodiu de azul e carmin,verde e luzes marfim
Era tudo movimento e eu me sentia bem ali
Podia brincar como as nuvens a luz do dia
Aquilo é uma bola ou andorinha?

Parece brincadeira, 
daquelas que a professora pedir pra fazer na infância
sujar as mãos na tinta,espalhar os sonhos no papel
e saber que era bom ser criança

E enfim no meu dia mais doloroso
eu reparei que todo mundo tem uma aurora boreal no olhar
não é mentira, vou te provar

Quando as lagrimas fizerem maré nos olhos, feche-os só um pouquinho
E o céu explode em azul e carmim
E todo o arco-íris que havia escondido dentro de mim...

Aceita um gole caro amigo?


Aceita um gole caro amigo? 
Não, não é qualquer tinto, é aquele seco, pouco fino.
Como sei que aprecia...
Um charuto também?
O de sempre?
Acenda-o aqui, jogue as cinzas alí...
E o que me trás sua ilustre visita?
Amando? Tu caro amigo?
Repita repita, penso estar ouvindo mal...
Amando?
E como ela é?
Carnuda, esguia, misteriosa, uma porta?
Perfumada tal qual o charuto que desfrutamos? 
Nada mal,  também não me agradam as com cheiro de leite e jasmins.
E o beijo? o toque?
Esqueça, as pernas, fale-me das pernas...

Mostrar-me?
O que diz? Me servir de um trago de vinho? Claro
O que é dessa vez homem? O charuto? Soltar a fumaça lentamente? Assim?
Assim é ela?! Amo-a também amigo!
Que louco resiste a um gole de vinho tinto seco pouco fino e a um trago de charuto?
Amo-a também caro amigo.. E seu nome?
Ah,só podia ser, cabe-lhe muito bem o descritivo.
Há mulher mais bela que o destino??