“A poesia não se entrega a quem a define.


Mário Quintana


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Devaneios


Desgaste ou falta de uso?

Ontem joguei fora um par de tênis... A sola desgastou... Pensei então no meu coração e em tantas coisas que se desgastam e que são jogadas fora com o tempo, ou deixadas de lado...

A borracha que desgastou e minha mãe me mandou deixar de lado porque já não apaga mais... A camiseta que virou roupa de dormir ou pano de chão porque já está manchada e não posso mais sair com ela... As canetas e papéis que já foram usados e vão pro lixo...

E se eu já estiver desgastada? E se eu for posta de lado como o tênis velho de ontem que já não aguenta mais tomar chuva nem ir pra padaria? E se eu já não servir pra apagar lembranças tristes das pessoas que eu quero bem e for posta no pote junto com as canetas vazias e papéis amassados?

E se eu for usada como roupa de dormir porque já estou manchada e sou péssima companhia pros passeios? E que amanhã ou depois vai virar pano de chão pra enxugar os pés cansados...

Fiquei com dó do meu tênis, quase o peguei de volta da lata do lixo, fui até procurá-lo, mas não encontrei. Me disseram que alguém passou e com um sorriso enorme nos lábios e de pés descalços o abraçou e levou pra casa...

É... até o desgaste deixa a gente novo em folha pra quem ainda não teve nada pra usar...

Devaneios


Fuso horário e minhas palavras e meias.

Uma hora e mais meia...
Pra poder te ligar e ficar só cinco minutos ouvindo sua voz, você sabe, detesto telefone e você também, mas gosto da sua voz, e gosto tanto... Gosto tanto de você e detesto uma centena de coisas pequenas que não se encaixam em você, em nós.
Uma blusa e uma meia
Pra eu poder lembrar que você é meio esquecido e que o cheiro do seu perfume é bom demais e o quanto seu abraço me faz falta...
Um biscoito e um copo de leite no meio
Pra saber que sem você eu perco o sono e que o fuso horário sempre me irrita, mas eu me limito pra te esperar... Te esperei a vida inteira, que são mais algumas horas no despertador, mas que ficar sem você desperta a minha dor....
Um beijo e uma vida inteira
E que essa distancia acabe daqui uma semana e meia...

Devaneios


Liberdade no ninho...

Zap! Ouvi não tão longe, seguido de um gritinho de excitação infantil.
-Tia peguei! Peguei! Peguei passalinho! E os olhos eram tão vivos e bonitos que me doeu o coração saber que era um pequeno caçadorzinho... E ele vinha de arapuca entre os dedos gorduchos, tropicando nos próprios sapatos...
-Ai ai ai menino, passarinho é bicho livre, não gosta de ficar em gaiola...
-Mas eu peguei, é meu! Vai cantar pla mim! Canta canta passalinho! E seus olhinhos inocentes brilharam sem ter muita noção do que fazia...
E o passarinho não cantou, piou miúdo pedindo socorro, um chororô que só quem entendia que gosto tinha a liberdade podia exprimir... Resolvi testar o bonito pivete...
-Vem cá com a tia, dá cá um abraço! E ele veio, sem saber das minhas intenções sem coração... Abracei-o e segurei seus bracinhos entre os meus dedos, sem força-los lógico... Ele tentou sair uma, duas, três vezes achando que era brincadeira.
Vendo que eu não largava, bateu-lhe um desespero que começou a debater-se entre meus braços, segurei-lhe também com as pernas, seus olhos brilharam com tom de choro e me cortaram como se eu fosse a pior pessoa do mundo.
-Brinca menininho, brinca... Sussurrei inocente, sem querer parecer irônica ou malvada demais pro menino rechonchudo e bonito que eu amava...
-Larga tia, larga, e abriu o berreiro,
Abracei-o e disse que o passarinho que ele pegara sentia-se do mesmo jeito. Ele enxugou os olhos brilhantes na barra da camiseta, correu pra arapuca e abriu, deixando o passarinho sair voando, num desespero igual ao do menino quando se livrou dos meus braços... Ele cabisbaixo voltou sua atenção para carrinhos e caminhões que ainda estavam espalhados no quintal.
A noitinha, já depois da hora de dormir ouvi o canto bonito de um pássaro, uma risada e fui conferir... Ele acenava freneticamente de janela aberta e falava: ”Canta passalinho, canta, canta! Canta passalinho!” Ao notar minha presença abriu-me um sorriso e disse que o “passalinho” havia voltado pra agradecer e que ele tinha aprendido a lição, e que tinha até escolhido um nome pro seu novo amiguinho... Como me espantei com o nome que o danadinho havia dado pro passarinho que era até pouco tempo atrás seu prisioneiro e agora amigo.

-"Ele chama Liberdade tia, Liberdade”.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Devaneios


Olhos cansados de um filhote antigo

A chuva caía pesadamente do lado de fora, a xícara de café esquentava minimamente as minhas mãos e a minha cachorrinha sentava-se no meu pé direito, me fazendo olhar pra baixo, cruzando seu olhar com o meu:
-Tá chovendo lá fora mesmo, pelo visto demora pra passar...
Ela se espreguiça como se essa fosse a nossa deixa de uma tarde preguiçosa de livros, comidas e monotonia. Resolvo por em ordem alguns textos no computador e ela calmamente depois de comer caminha até a sala e levanta as patas pedindo colo.
-Folgada. Resmungo falsamente, porque ela é peluda e me olha com os olhos brilhantes e cansados, de quem quer aconchego, mas eu não sei se é pra ela ou se ela leu minha alma e veio me dar carinho...
Descansou a cabeça entre os meus joelhos e quando eu terminei de escrever colocou a cabeça gentilmente em cima do teclado
-Quer ver se ficou bom? Ela me olha com os olhos grandes e brilhantes e eu afago as orelhas peludas e cheirosas dela.
Carrego-a pro sofá onde deitada ela se ajeita na minha barriga e coloco um filme pra assistir e ela atentamente acompanha o cachorro da televisão e quando ele late ela rosna baixinho com preguiça querendo me defender ou só chamar atenção, um tapinha gentil no topo da cabeça e ela me olha com os olhos brilhantes e cansados, de quem vai aproveitar a tarde e o colo pra dormir até a chuva passar...
E o silêncio do apartamento, o vento balançando as chaves na porta, fazem com que ela levante uma orelha atenta, e me olhe, e eu indago os olhos grandes e brilhantes que cansados me consolam, dizendo que a solidão que eu sinto vai passar assim que eu fechar os olhos e sentir o roncar do bicho peludo e cheiroso que dorme comigo a anos e que sem reclamar me faz companhia e enxuga minhas lágrimas com afagos de filhote antigo e nunca esquecido, e a chuva lá fora embala o sono de duas velhas companheiras que tem os olhos cansados demais pra notar que um arco-íris vem chegando...

Devaneios


Dois goles de agua e 10 minutos de fogos

-Quem jogou hoje?
-Não prestei atenção!
-Como não? Não sabe que o Corinthians ganhou no Japão e o São Paulo ganhou de W.O?
-E desde quando tem W.O em futebol? Não é só em luta ou sei lá o que?
-Sei lá... Tem cerveja na geladeira?
-Tem suco de morango serve?
-Bebo água mesmo...
-Se você sabia quem tinha jogado, porque perguntou?
-Pra saber se tinha ligado a televisão...
-Sabe que eu detesto televisão... Me trás um gole de água também!
-Toma! Não ouviu os fogos?
- Eu achei que era tiroteio...
-Tiroterio? E fala assim nessa calma?
-Ué... Estamos no Brasil... Tiroteio, polícia, favela, samba, carnaval, futebol... Normal...
- E porque é tão difícil pra você assistir futebol?
- É que eu gosto mais de ping pong...

Devaneios


Novos contos de fadas...

Não quero ficar presa numa torre, que raios de história é essa?
Não quero ficar deitada esperando um cara que eu nunca vi na minha vida vir me salvar quando eu acordar. Eu vou estar de pijama, com bafo e descabelada, sério que ele vai gostar de mim assim e ainda vai ser bonito? A história tá certa? É assim que tem que ser mesmo ?
Não quero ninguém subindo pelos meus cabelos, sabe o quanto demora pra alisar?
Quero eu mesma matar os meus dragões, ou me transformar em um, quando eu estiver de tpm.
Que o rei seja um garoto franzino que desenganado de tudo e de todos tire uma espada de uma pedra, como conta aquela história que eu ouvi uma vez. Que o herdeiro do trono seja herdeiro por causa dos sonhos, da índole e porque é sábio como ninguém e meio bronco talvez... Mas justo como ele não se viu aqui nem além...
Não quero um mauricinho perfeito que só ande de cavalo branco e cante as canções perfeitas que nunca ensaiamos antes; Ele pode vir de Corolla preto ou prata e cantar Rock’n Roll por favor?

Ele pode ser um Ogro que saia de todos os padrões da sociedade e que se encaixe somente nos padrões dos meus sentimentos? Gordinho, careca, de óculos, a mão maior que a minha, boné virado pra trás se assim ele preferir, mas que eu caiba nos seus braços e ele me olhe como se eu fosse uma pessoa bonita? Não princesa, princesas quebram, assustam, não envelhecem... Que ele me olhe como alguém que vai ter cabelos brancos, algumas muitas rugas nos cantos dos olhos, mas que ainda vai ter no coração o encantamento da juventude e de um sentimento bonito?

E como toda história tem que ter um título, deixa pra escolher quando o chegar o final feliz? Ele nunca diz muito da história, então pra ficar tudo igual, essência e função, cada um no seu qual, deixa pra escrever o título quando a pena pingar indicando o ponto final.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Devaneios


Alo, Romeu, eu to ligando porque escrevi umas coisas e como você não me atende, deve estar jogando futebol com o Paris e seus amigos, então eu resolvi falar por aqui mesmo...

Aqui é a sua Julieta... A Julieta que tem celular, email, carta de motorista e diploma de faculdade... A Julieta que não precisa pedir permissão pro pai pra namorar porque os pais foram morar na praia e não importa com quem eu namore, desde que ele não seja drogado e nem bandido, eles nem ligam se você  é cabeludo ou cheio de tatuagens e tenha um piercing na lingua ou no septo...

A sua Julieta não fica mais esperando você tacar pedrinha na janela porque no prédio tem interfone e não preciso ficar melancolicamente aguardando sua chegada jogada na cama,porque você não tem um pangaré branco, amarelo ou uma zebra listrada, você vem de Corsa, Fiat ou qualquer outra marca, que não me interessa... Não preciso mais ficar na janela ouvindo os cantos dos passaros(não que eu não goste, mas uma hora cansam..) porque já inventaram o mp3 e eu ouço as músicas que eu quiser enquanto você não vem... Posso até assistir as primeiras centenas de versões da nossa história, ou a enésima versão da história que estamos tentando mudar....
Posso reescrever poemas no meu tablet, reclamar da sua demora nas redes sociais, afogar miudamente a minha saudade com fotos e lembretes do seu rosto angelical...
Essa Julieta não precisa mais pedir pro Padre uma dose de veneno ou letárgico qualquer pra fingir que morreu pra poder fugir com você, porque somos maiores de idade nesse século e algumas coisas ficaram mais fáceis.... Essa Julieta já aprendeu na escola o que é sexo, desilusão amorosa e camisinha...
Mas essa Julieta, passe ano, passe século, passe autor , pena, lápis, caneta e computador... Essa Julieta, vai sempre, sempre por você morrer de amor...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Devaneios


Proteção sem saber

O ônibus sacolejou e eu coloquei a mão entre o vidro e a cabeça dele, meu melhor amigo, que dormia serenamente, aquele sorriso sempre de lado, meio coringa, meio maluco, meio criança, meio tanta coisa que não dava pra ser uma pessoa só, tinha que ser pelo menos umas 4 pra tanto meio que ele era...

Minha mão correu pelas costas dele, e ele se ajeitou no meu joelho dobrado como criança no colo da mãe, ele era meu melhor amigo, meu confidente, meu filho, onde eu colocava inutilmente todas as minhas frustrações, e ele moleque, brincava com elas como se fossem peteca e no fim do dia, só repousava e dormia sorrindo.

Ele parecia personagem de livro, eu juro, parecia um desenho animado, uma versão meio magrela do Robin ou uma versão mais comprida de um outro boneco de ação, e ria, como ria! Galante, vocabulário de adulto dos anos 50, e um sorriso encantador, esse era meu melhor amigo...
Comia que dava gosto de ver, se lambuzava e sorria, só ria, encantava qualquer pessoa com um brilho nos olhos que ninguém enxergava, ou que ele não mostrava pra ninguém além de mim... Enfeitiçava as pessoas como uma sereia com seu canto, atraía olhares e partia corações, de mim arrancava sorrisos e algumas orações.

E sempre que ele cansado repousava do meu colo, eu cantarolava um canção pra ele recobrar as forças, e eu sempre colocava a mão entre o vidro e a cabeça dele quando o ônibus sacolejava: Assim eu protegia meu melhor amigo que me protegia sem saber, apenas com um sorriso!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Devaneios


Acordei como se saudade fosse uma dor de dente

Que aperta bem lá no fundo, mas espalha por toda a cabeça e logo você já não sabe onde começa a dor... E ela apertou no peito, espalhou até me deixar meio zonza, e as lágrimas começarem a sair dos olhos involuntariamente encharcando o rosto e umidecendo a camiseta surrada do pijama.
Corri pro espelho tentando salvar a alma que parecia que queria pular também pelos olhos, tentei segurar, mas saíam só lágrimas, e as mãos tornaram-se pesadas, o fardo maior do que eu podia carregar, a boca já sentia todo o suor da alma, o salgado das lágrimas, o sabor da saudade que eu ainda tinha pra derramar.
Despi o pijama numa pressa descontrolada, querendo lavar o corpo como se a saudade fosse também sujeira, além de sabor e dor de dente que escorria num todo por mim... A água correu gelada incomodando a espinha, arrepiando os pêlos do braço e fazendo a respiração ofegar, depois descansando a testa no azulejo a saudade desceu pelo ralo e eu pude sair de casa vestindo um sorriso bonito escolhido a dedo da gaveta, depois de enxugar o resto de saudade na toalha que eu esqueci em cima da cama...

Devaneios


À beira da estrada pra lugar nenhum...
-Porque você me olha assim?
-Assim como?
-Como se você me conhecesse...
-Mas eu te conheço seu besta, nos conhecemos há uns 5..ou 7 anos?
-Não me importa, mas você me dá medo quando me olha assim...
-Ai, assim como, eu sempre te olho assim...
-Pois é, tenho medo sempre do teu olhar...
-Que bom saber disso depois de tanto tempo, eu paro de te olhar então...
-Não!
-Seu estranho, tem medo do meu olhar e não quer que eu pare de te olhar?
-Tenho medo de você parar de me olhar assim algum dia... De algum dia você parar de me olhar como se eu fosse a coisa mais interessante do mundo, como se eu fosse um extraterreste e você uma cientista maluca, como se você fosse uma criança e eu fosse o seu brinquedo favorito, como se eu fosse partir a qualquer minuto e você quisesse decorar cada traço meu, como se eu fosse o primeiro floco de neve que você estivesse vendo na vida, ou o último pôr-do-sol.... Tenho medo de você parar de me olhar...
-Te amo seu besta...
-Te amo sua maluca

Devaneios


Correspondências...

[Na portaria]
-Tem carta pra mim Geraldo?
-Tem não moça, ainda esperando notícias?
-Pois é Geraldo, ainda esperando, acho que vou esperar a vida inteira não acha?
-Logo chega alguma coisa... Assim que chegar eu ligo pra vir buscar, ou mando alguém entregar...

Depois de receber um comprimido de esperança de um segurança de condomínio, os passos lentos até o apartamento parecem ser uma peregrinação até a Nova Jerusalém (ou até Aparecida pra ser menos dramática...) O sol é forte e as frustrações pedem um banho e um copo de Coca-Cola gelada!
Me olho no espelho com olhos de quem não cabe no mesmo folhetim, e nem numa atualização de qualquer rede social... Frustrante.

Os peixes no aquário recebem sua porção de alimento e eu os observo, será que é assim com os sentimentos? A gente vai alimentando e eles vão permanecendo, crescendo, se multiplicando, até transbordarem no aquário do coração?
Será que funciona no inverso? Se pararmos de alimentar, como o peixe que morreu no mês passado, eu posso jogar ele pela descarga e ainda dizer pro meu priminho que uma fadinha se apaixonou por ele e veio buscar pra viver com ela como numa boba, mas reconfortante história infantil? Posso esconder um sentimento ilusório em uma outra ilusão? Seria saudável ou menos perigoso pro coração? Como aquela pele de frango que a gente coloca do lado do prato pra diminuir a culpa?
O telefone toca, uma, duas, três insistentes vezes:
-Moça? Sua carta chegou, quer que entregue? (O coração pula no peito feito o peixe suicida aquário...)
- Entrega pra mim Geraldo.
-Ok.
Alguns minutos depois a porta se fecha com um silencioso agradecimento e um par de mãos geladas segurando um envelope de papel.
Os olhos fixos num endereço qualquer, o nome sempre bonito de se pronunciar... Coloco a carta sob a luz do abajur e vejo a letra sempre tão incompreensível meio jogada de lado como quem tem pressa, cheiro o cheiro do tabaco forte e sempre amadeirado, as pontas do envelope sujas de qualquer coisa amarelada que não de dou ao trabalho de tentar descobrir, jogo-a longe e logo a recupero como quem descobre um tesouro ou um objeto favorito, escondo-a só pra ter o prazer de achá-la minutos depois, como criança travessa brincando de esconde-esconde.
A carta está em cima da escrivaninha faz 3 meses, intacta... Às vezes olho pra ela, seguro entre os dedos e repito a mesma brincadeira de esconder pra depois encontrar como se fosse surpresa, pra fingir uma saudade que eu não enterrei e só contei pro meu coração que uma fada levou pra morar com ela, assim como fiz com meu priminho, funcionou com ele, talvez funcione comigo... Nenhum peixe do aquário morreu esse mês.
Prefiro manter meu “peixe” alimentado assim, de migalhas, pra não morrer estufado nem de fome... Pelo menos por enquanto... Até trocar a água do aquário... 

sábado, 24 de novembro de 2012

Devaneios...


Sou desajustada sim!

Daquelas bem bipolares... Que chora vendo comercial de margarina e sai batendo o pé quando começa propaganda de supermercado...

Que devora um pote de sorvete de 200g e depois arrependida sobe de 15 em 15 minutos na balança pra ver se o peso continua o mesmo, e olha com revolta até pra folha de alface, como se ela fosse a culpada pelas calorias ingeridas anteriormente...
Que chora ouvindo músicas tristes, mas quando a playlist é alegre, fica revoltada e procura uma música que façam os olhos enxarcarem pra ficar se lamentando depois...

Sou a desajustada que conhece bem os olhares dos próprios amigos pra saber quando não estão bem e que finge ao máximo pra que ninguém desconfie que a unha quebrou ou que tomou um bolo do cara que estou caindo de amores (embora por dentro ainda ache que deva ser indicada pra receber um Amy ou um Tony por ser tão “boa” Atriz (fingidora))...
Sou a desajustada que ingere sem culpa seus comprimidos de estabilizador de humor pra depois bater no peito e dizer que não preciso disso (Ah se soubessem!)
Aquela que se apaixona por alguém uma vez por mês, mas ama um ou dois eternamente... Das pequenas alegrias, das euforias momentâneas e tristezas perenes, das poesias queimadas e prosas frustradas, das sessões infindas com a psicóloga que virou quase meu diário, porque nem eu sei tanto de mim quanto ela... Das manias e loucuras que todo mundo tem um pouco, santidades e atrocidades pessoais e intransferíveis como bilhete único e RG.
Dos amigos de conto de fada e operetas que ninguém assistiu, dos choros e velas que esqueceram de apagar, dos perfumes e crises que esqueceram de pintar, das cores e figurinos que ainda não vestiram no camarim...
Da desajustada que tem certeza que ninguém mesmo é tão normal... E que parece ser tão feliz assim!

domingo, 18 de novembro de 2012

Devaneios


Telefonemas...

-Alô? Oi, me responde uma coisa? Eu sou bonita?
-Como é? A voz de sono acusou que eu acabara de acordá-lo. 
-É, você ouviu, eu sou bonita, gostosa,  você me pegaria?
-Isso é coisa que se pergunte, sua louca? Bebeu?
-Não, mas eu quero resposta, sim ou não?
-Sei lá...
-Sabia, não devia perguntar isso pra um amigo... Devia ter perguntado pra um total desconhecido, que no mínimo, tentando alguma coisa, diria que eu sou gostosa  e perguntaria porque eu não apareço no apartamento dele...
-E você aceitaria?
-Se fosse um estranho bonito, quem sabe?
-Mas e se fosse um maníaco, vendedor de orgãos de mulheres desesperadas por aceitação assim que nem você... 
-Você tem cara de maníaco e vira e mexe eu vou pro seu apartamento... E até agora meus orgãos estão intactos, eu acho pelo menos... Bah, mulheres desesperadas por aceitação, é lógico, eu não tenho essa cara de maníaco sedutor rei dos movimentos pélvicos que você tem... Porque eu deveria ficar conformada e não perguntar se alguém me acha bonita?

-Eu te acho bonita...
-Demorou muito pra falar, vou pra rua perguntar pra algum estranho...
-Se eu passar de boné na sua frente você me pergunta?
-Você de boné é realmente estranho... Quem sabe.
-E se eu te convidar pra aparecer no meu apartamento, vai ser estranho também?
-Vai, mas você é um estranho que eu já conheço... Talvez eu aceite, se rolar uma breja e um pacote de Doritos...
-Então prepara a pergunta que em 10 minutos eu passo aí na porta...

E a minha cabeça martelou que em 10 minutos eu teria que fazer a pergunta que eu tive coragem de fazer somente por telefone... E que não recusaria se ele me chamasse pro apartamento dele, sentia falta do cheiro dele... Com tantos números pra ligar, eu fui direto pro número dele.... 9 minutos... Eu não recusaria um flerte ou uma mão no ombro, uma fungada na curva do pescoço e a barba dele roçando e me fazendo cócegas... 6 minutos... Descer as escadas tentando não parecer afobada, atravessar a rua e fingir olhar a revista de fofoca que eu odeio só pra ver ele se aproximar de boné e a camiseta de frase pronta que ele mesmo havia pintado...
-Oi, posso te perguntar uma coisa? Você me acha bonita? Seguido de um sorriso ridículo e esperando uma resposta nada convincente... Ele pegou na minha mão.

-Ei, você não vai me responder?
-Quando chegarmos no meu apartamento te respondo...
-E quem disse que eu vou com você pro seu apartamento...
-Quer a resposta sim ou não?

Numa falsa resistência, arranquei da sua mão o meu punho e segui rumo ao apartamento dele, 3 ou 4, ou 5 quadras de onde eu morava...

Subi as escadas com uma calma e com uma rotina já a ser seguida... Quando a porta bateu atrás de mim, os pêlos da nuca eriçaram, o bafo quente e descompassado de quem correu atrás de mim pelos degraus, sussurrando na minha orelha... Os dedos entrelaçaram e antes da boca atingir o meu pescoço, desvencilhei-me de pernas bamba até a cozinha, onde me esperava uma garrafa de Coca-Cola...
Beberiquei distraída, enquanto ele arrumava a sala aos tropeços, era impressão minha ou ele havia dado um jeito no apartamento? Vasculhei calcinhas e outros vestígios na área de serviço, como se não me importasse. Não achei nada, não me devia nada.

Sentei-me no sofá, abracei uma almofada e liguei a televisão com de costume... Ele só olhava, ora divertido, ora confuso, até que se sentou ao meu lado, ergueu as pernas e jogou-as sobre mim... Circulei os dedos em sua rótula, como sabia que ele gostava, era inconsciente, era diferente... Até que ele avançou, avançou com barba, cabelos e tudo o que não dava pra despir naquele momento.

Acordei na manhã seguinte no sofá, com as pernas vibrando em recordações, e ao meu lado um bilhete, aquela letra horrível dele que dizia:

"Você é bonita, você é gostosa, e sempre que tiver dúvidas, sabe onde encontrar um estranho que te console. Ass: Seu estranho"

Sorri, tomando mais um gole de Coca-Cola e massageando meu ego de mulher que precisa de aceitação e de um maníaco não contrabandeador de orgãos pra perguntar se eu sou bonita....

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Devaneios...


ndrome-de-querer-alguém...

Sou péssima em inventar desculpas e ótima em querer as pessoas por perto...

Assim, meio síndrome-de-querer-alguém-por-perto, se é que isso existe, e se não, deviam procurar mais, porque eu devo ter...
Sempre canso das coisas muito rápido, dos livros, dos poemas, dos bichinhos de feltro que eu esqueci de costurar e daquele tênis que antes eu não tirava do pé.

Mas me esqueci, ou esqueceram de me ensinar, a cansar das pessoas... Canso das coisas, não das pessoas, gosto dos sorrisos, dos trejeitos e acessos, observo silenciosa e volátil todo e qualquer movimento... Cansei do ursinho que ganhei de aniversário e dos cadernos que eu faço questão de comprar 1 por mês, ainda que eu não tenha escrito nada no último... Mas não cansei do cheiro de pele, do calor dos abraços, do brilho do olho. 
E talvez por isso, senti falta e senti uma falta que não batia na minha porta( se é que precisava bater pra entrar e bagunçar tudo)  há uns 4 anos... Saudade de estar perto de quem está bem longe...

Mas a falta já tá indo embora, porque o Frango Frito chegou e a garrafa de vinho já tá aberta(remédio melhor pros dias de Sindrome-de-querer-alguém-por-perto não tem)... Tem sim, ter alguém pra dividir a garrafa que já está na metade e ouvir as lamentações de quem cansou das coisas mas não das pessoas...

Devaneios...


Barba Rala

-E se ele me beijar o que eu faço? Pensava aturdidamente, tentando calar os impulsos animais que estava segurando a meses, ou semanas, ou dias, (ou um fim de semana), enfim, que estava segurando... E ele vinha, hirsuto, de barba cheirosa e o corpo que eu sentia saudade de ver sempre... Ver, não ter, porque nunca tive...
Me abraçou, o coração quase pulou, parou na garganta e eu fiz um esforço danado pra engolir ele de volta pro lugar(e o medo de cuspir ali, na frente dele, o coração feio e machucado que eu tinha e guardava a tanto tempo só pra mim? )Vai que ele se assusta e sai correndo, não é todo dia que alguém vomita um coração feio e machucado na sua frente.
Passou o braço na minha cintura e me puxou pra perto, e o cheiro do perfume dele invadiu meus pensamentos e bateu lá no baixo ventre, senti as pernas tremerem e o entremeio umidecer. Falou besteiras de um economista qualquer, franziu a testa quando comecei meu papo chato-heróico de falsa comunista, diva enrustida e bêbada sem licor. Passou as mãos atrás da minha orelha, sabia que me deixava tonta assim, olhou nos meus olhos e riu, riu aquela risada que me estremeceu o ventre, um sarcasmo, uma delicia, um deboche que eu não esperava, era só alguém que caía atrás de nós...
Na sala, ajeitou-se ao meu lado, pôs a mão em minha coxa e apertou com medo, como se eu reprovasse,(ah se ele soubesse o que se passava na minha cabeça),encostou os lábios na curva do meu pescoço, e eu segurei pra não tremer ou gritar. Ou pular em cima dele...
O beijo foi calmo e delicioso,  tinha aquele gosto de guaraná que tínhamos acabado de beber, porque o vinho tinha acabado... A mão foi calma e respeitosa(maldita mão respeitosa). Não prestei atenção nos 2 filmes que assistimos, só me atentei na respiração dele, a cada risada, a cada comentário humorista-fim-de-carreira que eu não podia criticar, me faziam rir...
E o dia terminou assim que o telefone tocou, boas ou más notícias simplesmente o fizeram passar pela porta.... Só um olhar de complascência que me irritou momentâneamente. Um tombo na cama e o pensamento que martelava insistente: E se ele não me ligar?

Palavra do Dia!


Sai de mim 



Sai de mim coração despedaçado
aqui dentro é frio e o vento corre calado

Os cortes da vida ainda não cicatrizaram

Sai de mim coração
que eu não quero sentir
não quero sorrir

Vai coração
descansa ali no canto ou sobre a mesa
te recolho quando tiver certeza
de te fazer feliz coração

Vai passear e se quiser não volta, prometo não trancar a porta

Sai de mim coração
e se sentir saudade do seu velho amigo
passa na minha janela
que eu te aceno pelo vidro

E se quiser chorar
chora quando chover
pra água esconder a lágrima
e a levar consigo a dor, tão amálgama

Palavra do Dia!



Aurora Boreal


O céu explodiu de azul e carmin,verde e luzes marfim
Era tudo movimento e eu me sentia bem ali
Podia brincar como as nuvens a luz do dia
Aquilo é uma bola ou andorinha?

Parece brincadeira, 
daquelas que a professora pedir pra fazer na infância
sujar as mãos na tinta,espalhar os sonhos no papel
e saber que era bom ser criança

E enfim no meu dia mais doloroso
eu reparei que todo mundo tem uma aurora boreal no olhar
não é mentira, vou te provar

Quando as lagrimas fizerem maré nos olhos, feche-os só um pouquinho
E o céu explode em azul e carmim
E todo o arco-íris que havia escondido dentro de mim...

Aceita um gole caro amigo?


Aceita um gole caro amigo? 
Não, não é qualquer tinto, é aquele seco, pouco fino.
Como sei que aprecia...
Um charuto também?
O de sempre?
Acenda-o aqui, jogue as cinzas alí...
E o que me trás sua ilustre visita?
Amando? Tu caro amigo?
Repita repita, penso estar ouvindo mal...
Amando?
E como ela é?
Carnuda, esguia, misteriosa, uma porta?
Perfumada tal qual o charuto que desfrutamos? 
Nada mal,  também não me agradam as com cheiro de leite e jasmins.
E o beijo? o toque?
Esqueça, as pernas, fale-me das pernas...

Mostrar-me?
O que diz? Me servir de um trago de vinho? Claro
O que é dessa vez homem? O charuto? Soltar a fumaça lentamente? Assim?
Assim é ela?! Amo-a também amigo!
Que louco resiste a um gole de vinho tinto seco pouco fino e a um trago de charuto?
Amo-a também caro amigo.. E seu nome?
Ah,só podia ser, cabe-lhe muito bem o descritivo.
Há mulher mais bela que o destino??

Palavra do Dia!


Vermelho

A terra é úmida
mas não tão quente
quanto o doce suor da sua boca

O lençol é macio e sem enfeite,
mas não tanto quanto seus seios,
ligeiramente pequenos, alvos e suaves,
como o leite

A Lua brilhante aponta no céu,
de setembro à novembro
negro véu

Mas teu olho cintila,delira
minha lingua na tua virilha

O sangue é viscoso 
e o hálito é fresco

Vermelho é o batom que eu roubo com um beijo....

Palavra do Dia!


Toque

Um toque
Um olhar
Que me custou a alma
Que me custou a carne
Que me custou mais do que eu podia pagar
Que custou a garrafa de vinho mais cara
Pra acalmar o estomago...

Se eu embriagasse as borboletas que 
agitadas voavam dentro dele
O toque dele não incomode tanto 
e não me custe tão caro da próxima vez...

Uma garrafa de vinho mais barata e uma partida de xadrez